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O Edifício

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Museu: a palavra vem do latim museum, que por sua vez é derivado do grego mouseion, que se refere a um lugar ou a um templo dedicado às musas, as divindades da mitologia grega que inspiravam as artes. Em virtude da disponibilidade de meios e da congregação de vontades necessárias, o aparecimento de um novo museu é um facto pouco frequente. Para um arquitecto, a possibilidade de operar com um programa com esta importância e singularidade, é um acontecimento raro e valioso. Conceber um museu é uma oportunidade única para confrontar o carácter substantivo do espaço com a intangibilidade da cultura e do conhecimento. Para a dar a “conhecer”, o arquitecto ordena o espaço, organiza percursos, orienta a luz, exibe conteúdos e assegura a sua protecção e conservação.


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O EXISTENTE
A possibilidade de conceber o Museu do Oriente constituiu um privilégio e um desafio irrecusável. O objectivo consistia em albergar uma valiosa colecção privada centrada numa temática comum, o Oriente, nas suas vertentes histórica, social, etnológica, antropológica, arqueológica e artística, no Edifício Pedro Álvares Cabral, uma cuidada construção portuária do início dos anos quarenta, da autoria do arquitecto João Simões Antunes. Destinado, durante a maior parte da sua já longa existência, à armazenagem de bacalhau (cujo persistente odor chegou a provocar alguma preocupação na fase inicial da obra), o Edifício Pedro Álvares Cabral localiza-se na Avenida de Brasília, em Alcântara, numa área sob tutela da Administração do Porto de Lisboa e encontra-se classificado como Património Municipal. A sua grande superfície e os seus seis pisos de altura, provocam uma escala e volumetria dominantes naquela parte de cidade, para o que contribui também a sua elementaridade e a quase total inexistência de fenestrações, ditada certamente pela função de armazenagem para que foi concebido. A sua organização longitudinal e simétrica centra-se num corpo central, referencial hierárquico do conjunto, ladeado por duas alas um pouco mais baixas. Nas cegas superfícies do alçado Norte, estas são pontuadas por dois baixos-relevos do escultor Barata Feyo. Interiormente destacam-se a densa e obsessiva estrutura de robustos pilares de planta quadrada, que se estende ao longo da superfície dos vários pisos e o reduzido e limitador pé-direito que estes apresentam. 


 
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 A INTERVENÇÃO - UM DESAFIO
Inicialmente contratados para conceber a museologia e os espaços públicos do museu, fomos desde logo confrontados com um desafio: uma obra de remodelação de um edifício de grande qualidade em curso; um projecto, parcialmente implementado, que estabelecia já alguns aspectos estruturantes na organização do edifício. Face a este contexto, acordou-se com a Fundação Oriente e com o arquitecto Rui Francisco, autor do projecto referido, a realização de um trabalho mais profundo, com o objectivo de reconduzir a obra e repensar o projecto, de modo a que este pudesse suportar as intervenções e demolições já irreversíveis, criando ao mesmo tempo o espaço de manobra que necessitávamos para a concepção do museu. Por outro lado e para além das naturais limitações à instalação de um programa museológico que uma construção pré-existente coloca, o Edifício Pedro Álvares Cabral apresentava ele próprio algumas características específicas: - o baixo pé-direito da generalidade dos seus pisos surgia como pouco adequado à generosidade espacial exigível para um edifício público, situação ainda agudizada pela irreversível substituição de alguns pilares por suportes horizontais; - ao mesmo tempo, o grande encerramento dos seus alçados, ainda que compatível com os requisitos das áreas expositivas, levantou dificuldades acrescidas para a iluminação e ventilação dos restantes espaços. Com o objectivo de conciliar a identidade arquitectónica do edifício com o novo uso museológico, procurou-se reesclarecer a estrutura organizativa deste. Nesse sentido, assumiu particular importância a redefinição dos acessos verticais, dos circuitos de público e funcionários e a distribuição funcional por piso. Também a definição formal do edifício traduzida na sua imagem aparentemente simples e adaptável, com sinais denunciadores da sua genealogia estilística e da iconografia do Estado Novo, condicionaram de um modo inesperado opções formais e gráficas ao longo de todo o processo.

Francisco Freire, arquitecto
(JLCG Arquitectos, Lda.)



FICHA TÉCNICA: 

Autores do projecto de arquitectura:
João Luís Carrilho da Graça | Rui Francisco
Coordenação do projecto geral:
OXALIS, Arquitectura e Congéneres, Lda. (até 2006/02/25) | JLCG Arquitectos, Lda.
Projecto de museologia:

João Luís Carrilho da Graça | Nuno Gusmão (P-06)
Projecto de arquitectura de cena:
OXALIS, Arquitectura e Congéneres, Lda.
Projecto de ajardinamento:
Arq. Gonçalo Ribeiro Telles